Re-descobrindo o pão que nos alimenta

Atualizado: 30 de Jun de 2020


Gente querida, que tempo novo estamos vivendo, já se deram conta de que mexeu com tudo na vida, mas mexeu demais com nosso jeito de rezar, de orar, de oferecer a vida ao sagrado? Então, vamos conversar um pouco sobre isso?

Interessante que nos fez repensar o que é sagrado. Talvez muitas pessoas colocavam a ideia de sagrado apenas dentro dos templos, dos terreiros, das tendas, dos seus recantos sagrados.

E o convite-convocação que nos chega nesse momento é repensarmos. Mas será que tem a dimensão sagrada em outros espaços? Com isso estamos ressignificando o que entendemos como espaço sagrado, como templo sagrado, como tenda sagrada. Inicialmente, logo no início desse período de isolamento social, vimos as comunidades tentando re-criar em cima do que já conheciam. E com isso, sabem o que está acontecendo? É lindo demais. As comunidades foram voltando às suas origens, às suas fontes, para reencontrar com o que é espaço sagrado para cada uma delas.

Então, o que temos? Temos o antigo-novo se integrando, num dinamismo lindo de fidelidade-continuidade-criação, próprio do espírito divino vivo que sopra onde quer desde sempre.

É antigo porque as comunidades estão retomando experiências deram origem às suas práticas religiosas, sagradas. É novo porque ao olhar para a fonte, cada comunidade revê, ressignifica com o cuidado de não perder o essencial de suas origens.


O Sagrado em cada um de nós

É o Espírito soprando... com seu vento renovador, revolucionário, criador do novo... ele sopra e nos atinge em muitas dimensões. Trago aqui algumas que consigo sentir e perceber sinais de Sua Presença.

A primeira dimensão que estamos tocando, é a da presença do Sagrado em nós mesmos, ao encontro com o sagrado no profundo de cada um de nós. Cada pessoa, cada homem, cada mulher, cada ancião, cada criança... Voltamos às origens do encontro com o sagrado, com o vínculo que nos reuniu, nos precede e nos orienta. Nos tornamos reverentes ao sagrado que habita em cada ser humano e em nós mesmos.

Nas redes digitais temos visto pessoas relatando como tem se dado essa descoberta. É, no fundo, a experiência da percepção consciente da presença do Mistério divino. É uma experiência mística, de quem se sente habitado pelo divino e vivencia um sentimento único de realização de seu próprio ser e do sentido do viver. Para a espiritualidade cristã, se trata da autocomunicação de Deus com seus filhos e filhas.


O Sagrado na natureza, nos acontecimentos, nas pessoas

Só que não ficamos só nisso não... vamos alargando essa experiência e percebendo o sagrado não apenas nos seres humanos, mas também cada animal, cada planta, cada pedaço de chão, cada pedra, cada ser estelar, cada gota de água, cada chama de fogo... enfim, tudo é vida, tudo é sagrado, e tudo se move.

Essa é a segunda dimensão que vai sendo re-descoberta nestes tempos de isolamento das comunidades religiosas que se encontravam em seus templos, tendas, terreiros... É a presença do Sagrado na natureza, nos acontecimentos, nas pessoas.

Um teólogo amigo chamado João Batista Libanio nos diz em uma de suas reflexões: “A natureza, em sua condição de reflexo do Criador, tem sido o lugar do encontro com Deus”.

Nesses tempos tão difíceis para nós, seres humanos, temos também contemplado a Criação e ela nos brinda a cada dia com sua harmonia, como se estivesse em festa diante do repouso que essa pandemia acabou oferecendo a ela. Podemos contemplar, tocar, sentir, cuidar dos campos, flores, plantas, animais, solos, ar e aprender a admirar a harmonia das criaturas da natureza. Talvez estivéssemos distraídos e, como crianças, estamos sendo reapresentados ao mundo como espaço privilegiado do sagrado.

Ao mesmo tempo, essa terra é redescoberta como lar, como casa de todos nós, como Casa Comum, como nos alerta Papa Francisco. Olharmos de novo para a Laudato Si, neste momento, é também nos darmos conta de que a profecia já estava aí, mas tantas vezes somos lentos em nossos corações e práticas na com+vivência com a Casa Comum.

E tem mais, já perceberam que ainda nessa dimensão, estamos nos abrindo para novos relacionamentos? Alguns se tornam ainda mais próximos na com+vivência, outros, ainda mais distantes, mas que nos convocam a prestarmos atenção a cada detalhes, a uma atenção sensível.

E os fatos cotidianos? Política, economia, mídias? Nossa, uma avalanche que nos pega a cada momento, alguns nos surpreendendo, outros nem tanto. Mas também nos chegam como convites a revermos nossas vidas e escolhas. A Casa Comum é a casa de todos nós, sem divisões e fronteiras que nos isolem.

O sentimento de sororidade e de fraternidade ecoa em cada ser, em cada coração, ele pode ser tocado, é palpável, a cada dia.


O Sagrado nas comunidades de fé e a dimensão da Eucaristia

Mas... como estão as comunidades? Elas também estão se reinventando? Com isso entramos numa terceira dimensão que desejamos trazer nessa pequena reflexão. Se trata de confirmarmos a presença do Sagrado nas comunidades de fé.

Pois é, não é que também as comunidades religiosas, nos mais diversos recantos do mundo, descobriram formas de que os encontros pudessem permanecer vivos e alimentadores da vida?

E ainda mais. As comunidades abriram suas portas virtuais para a acolhida de quem necessita de apoio, aconchego, força espiritual, escuta e silêncio, abraços virtuais. As comunidades possuem uma força espiritual amorosa. Elas se tornam, neste tempo tão difícil, chão que fecunda vida nova. Espaços de escuta, de superação e alimento. Elas são a própria sustentação da energia amorosa sagrada que tudo conecta, que cuida, supera e renova todo o cosmos.

Nesse ponto de nossa reflexão, poderíamos ousar caminhar pelos encontros de muitas comunidades religiosas, de muitos novos templos sagrados que foram construídos na realidade virtual mas, aqui pensando com meus botões, pensei que não seria apropriado trazer à tona experiências de outros universos religiosos que não ao que pertenço. Por outro lado, estou observando que as comunidades cristãs que se reuniam em torno da Eucaristia, estão meio perdidas... então, vou propor uma reflexão sobre essa dimensão para as comunidades cristãs, especialmente as comunidades católicas. Muitas comunidades católicas, acostumadas a centrar sua experiência religiosa no encontro em torno do altar, da mesa do Senhor e no domingo, no dia do Senhor, estão com dificuldade de abraçar o sentido mais profundo da Eucaristia. Daí que proponho darmos mais alguns passos nesse sentido...

Para as comunidades cristãs, a liturgia cristã é um eixo, uma referência, como diz um documento fundamental para a Igreja, um dos documentos do Concílio Vaticano II: a Constituição Sacrosanctum Concilium:

A liturgia é o cume para o qual tende toda a ação da Igreja e, ao mesmo tempo, a fonte de que promana sua força. A liturgia renova e aprofunda a aliança do Senhor com os homens, na eucaristia, fazendo-os arder no amor de Cristo. Dela, pois, especialmente da eucaristia, como de uma fonte,<