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Juventudes e Espiritualidade Libertadora
Este site é uma iniciativa do coletivo que constrói os Encontros Nacionais de Juventudes e Espiritualidade Libertadora.

SÃO JORGE NÃO É OGUM, SALVE JORGE; SÃO JORGE É OGUM, OGUNHÉ!

 (Nem sempre "ser ou não ser" é uma questão...)

 

 

No mundo do Santo há seguimentos que lutam para se desvencilhar os orixás dos santos católicos. Essa luta anti-sincrética tem, grosso modo, o objetivo descolonizador. Visa, pois, salvaguardar a história, os patrimônios culturais e religiosos e as identidades dos povos subalternizados. A icônica sacerdotisa do candomblé soteropolitano, Mãe Stella de Oxóssi, é figura emblemática da defesa dos valores africanos que atravessaram o Atlântico na diáspora forçada.

 

Por outras razões, muitos cristãos católicos, inclusive do corpo hierárquico,  também trabalham no sentido de distinguir, inadvertidamente, o Santo Guerreiro do Orixá vencedor das demandas. O segmento pentecostal católico mostra um posicionamento renhidamente intolerante no que se refere à associação do cristianismo com as religiões afrobrasileiras, candomblé e umbanda, mais especificamente. O monsenhor Jonas Abib, uma das maiores referências do pensamento pentecostal católico, em sua obra "Sim, sim; não, não", expõe, sem reservas ou pudor, inúmeras páginas de intolerância, eugenia e racismo.

 

No horizonte preconceituoso e eugênico de boa parcela do catolicismo, o trabalho inglório de buscar distinguir São Jorge de Ogum radica-se no desejo de se salvaguardar a  "pureza" branca da fé cristã ante a impureza negra dos entes luciferianos afrobrasileiros. Em outros termos, parte significativa do catolicismo, ao fim e ao cabo, vê como degradação, ou, no mínimo, como incompatível, a relação São Jorge/Ogum. Tal relação vivida e assumida por grande parte da população carioca causa, para não poucos clérigos, estranheza, desconforto e, nalguns, declarada repulsa. No fundo, verifica-se, no subterrâneo, um olhar racista por boa parte dos arautos da pureza da fé cristã, para os quais, no fundo, é preciso defender o branco Jorge do Orixá negro Ogum.

 

Há os que vêem com suspeita as festividades do dia 23 de Abril por julgarem São Jorge o santo dos macumbeiros.  Também esses desejam salvaguardar purezas. Escrevem, pois, Luis Antonio Simas e Rufino em "A ciência encantada das macumbas": 'Quem faz o Santo é o povo'.  Esse é o verso que compreende as significações de um Santo praticado de forma plural e ambivalente. Qualquer sujeito que se lançou ao que é vivido em Quintino, no Centro, na Baixada ou em qualquer outro terreiro da cidade, sabe que a pureza imaculada do guerreiro capadócio não resistiu às "contaminações transatlânticas".

 

Da minha parte, não creio que estamos diante de um fenômeno simples.  Mas, considero que o catolicismo ainda não foi capaz de levar a sério as religiosidades vividas pela população brasileira, tampouco a profunda experiência religiosa dos candomblés e umbandas, entre outras. Falta à Igreja a coragem de encarar as religiões afrobrasileiras como desafios e oportunidades teológico-pastorais. Falta à Igreja coragem para olhar e refletir sobre catolicismos que destronam pretensões pudicas. No fundo, falta ao catolicismo brasileiro o interesse de se autocompreender em suas múltiplas narrativas. 

 

No diálogo positivo a Igreja "em saída" ensina e aprende. Mas o catolicismo oficial tende a manter seu olhar de superioridade e suposta pureza. Reverberando essa posição, hoje, 23 de Abril de 2019, acredito que não poucos clérigos dirão: "São Jorge é São Jorge e Ogum é Ogum"! Tal afirmação não é errônea. Contudo, seguramente, tais clérigos (e não clérigos) sequer vão se dar conta que, considerando imaginários religiosos, nem sempre "ser ou não ser" é uma questão...

 

Ademais, o cavalo do santo, ao que tudo indica, é mais veloz que a racionalidade de oposição dos teólogos e clérigos. As vezes as verdades vividas passam ao largo das formulações dos catecismos. E para desconforto e perplexidade dos inadvertidos e beligerantes arautos da "pureza" vale ainda dizer que, para grande parte da população devota (incluindo católicos de prática e comunhão), discutir se São Jorge é Ogum ou se São Jorge não é Ogum não faz sentido algum!

 

 

* Pe Gegê é pároco da Paróquia Santa Bernadete, na Arquidiocese do Rio de Janeiro/RJ, Psicólogo Clínico e Doutor em Ciências da Religião pela PUC-SP.

 

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